Padre Zezinho: “Daqui há dois dias deixarei as redes sociais”

Neste final de semana, após participar de um evento católico do qual tenho tanto apreço, saí com meu coração de leiga e jornalista inquieto.
Já estive ali inúmeras vezes a trabalho, mas desta vez vivi algo completamente diferente: participei como escritora, lançando um livro. Um momento que levarei para sempre no coração.
Uma das maiores riquezas desse evento é justamente reunir os diferentes carismas da nossa Igreja. É a oportunidade de enxergar aquilo que temos de mais bonito: a unidade na diversidade.
Ao meu lado estava o meu biografado, que também lançava seu livro. Confesso que, em todos esses anos trabalhando com ele, foram poucas as vezes em que o vi tão disposto. Aos 85 anos, olhou nos olhos das pessoas, abraçou, ouviu histórias, gravou vídeos, cantou e fez questão de acolher cada pessoa que se aproximava. Era bonito de ver.
Depois da sessão de autógrafos, ele seguiu para uma entrevista cuja pauta era sua própria história: 85 anos de vida e 60 anos de sacerdócio. Como assessora, não pude acompanhá-la, mas via de longe o quanto ele estava feliz e envolvido naquele momento. A entrevista era conduzida por um jornalista renomado e contava com outros entrevistadores, entre eles um influenciador digital.
O que deveria ser uma celebração de uma vida inteira dedicada à evangelização acabou se transformando em uma emboscada.
Em determinado momento, fizeram ao padre uma pergunta claramente tendenciosa. Não era uma pergunta sobre sua história, sobre seu ministério ou sobre sua missão. Era uma pergunta construída para citar nomes, provocar uma reação e gerar um corte. E conseguiram. Envolvido pela conversa, espontâneo como sempre foi, o padre respondeu. Deu a eles exatamente o que procuravam. O mais impressionante veio depois.
Nós sequer havíamos saído do evento quando o corte da entrevista já circulava pelas redes sociais. Não houve tempo para assistir à entrevista completa. Não houve tempo para ouvir o contexto. Não houve tempo para entender tudo o que havia sido dito.
Naquele exato momento, eu já sabia o que aconteceria em seguida. Eu sabia que um determinado influenciador gravaria um vídeo repercutindo aquele trecho, porque esse roteiro já se repetiu tantas vezes que ficou previsível. Eles andam juntos e são previsíveis. E foi exatamente o que aconteceu. Mal o corte começou a circular, já havia vídeo comentando o vídeo. Depois outro comentando o comentário. E assim nasce mais uma polêmica católica na Internet.
Enquanto isso, ninguém falou dos elogios que o padre fez durante a entrevista. Ninguém repercutiu sua alegria em celebrar 60 anos de sacerdócio. Ninguém compartilhou o carinho com que acolheu centenas de pessoas durante todo o evento.
Porque isso não viraliza? Uma vida inteira de evangelização rende poucos cliques.
Mas este texto não é para defender o Pe. Zezinho. Sua história fala por si. Seu legado também. Escrevo como leiga, jornalista e comunicadora católica. E justamente por isso me pergunto: o que esse tipo de comunicação produz para a Igreja? Que bem faz esse tipo de “apostolado”? Quem ganha quando um sacerdote se torna alvo de mais uma onda de julgamentos?
O Pe. Zezinho foi um dos grandes pioneiros da comunicação católica. Muito antes de existirem influenciadores, algoritmos ou redes sociais, ele já utilizava os meios de comunicação para evangelizar. Apanhou muito para abrir caminhos que hoje tantos percorrem com facilidade. Foi conselheiro de sacerdotes como o saudoso Pe. Léo, companheiro de missão e grande amigo de Pe. Jonas Abib, além de inspirar gerações de padres e comunicadores que hoje ocupam o seu espaço.
O que mais me preocupa é perceber que alguns dos que hoje se apresentam como defensores da verdade parecem viver à espera da próxima polêmica. Apresentam-se como guardiões da fé e da verdade. Mas, na prática, sobrevivem de recortes, de interpretações apressadas e da exposição pública de sacerdotes. Como católica de berço, aprendi a respeitar a persona Christi de um sacerdote, mesmo quando não concordo com tudo o que ele diz.
Como jornalista, aprendi que contexto importa. Como comunicadora católica, jamais faria uma pergunta cuja finalidade fosse colocar um padre em uma armadilha para produzir um vídeo de grande alcance.
Infelizmente, nós, católicos, alimentamos essa lógica toda vez que consumimos esse tipo de conteúdo. A comunicação nunca é neutra. Ela pode aproximar ou afastar, construir ou destruir, evangelizar ou escandalizar.
Quando alguém escolhe transformar um sacerdote em alvo de uma polêmica para gerar alcance, não atinge apenas aquela pessoa. Atinge a confiança dos fiéis, enfraquece a comunhão da Igreja e contribui para um ambiente de permanente suspeita entre irmãos. É preciso ter responsabilidade!
Saí daquele evento feliz por ver um sacerdote de 85 anos celebrar sua história junto ao povo. Poucos minutos depois, antes mesmo de deixar o local, vi aquela mesma história ser reduzida a um corte de poucos segundos. E isso, sinceramente, entristece meu coração de católica, de jornalista e de alguém que conhece os bastidores.
Texto da jornalista Gabi Bonavechio
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