
Há momentos em que uma sociedade precisa olhar para trás não para alimentar ressentimentos, mas para não perder a capacidade de distinguir memória de narrativa. Comparar Lula e Bolsonaro, portanto, não deveria ser apenas uma disputa entre PT e PL, direita e esquerda. É também uma discussão sobre valores, prioridades e sobre o modelo de sociedade que cada projeto político representa. O período de 2019 a 2022 deixou episódios que, pela gravidade ou pelo simbolismo, merecem ser lembrados. Não para condenar milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro, mas para recordar fatos que aconteceram sob seu governo e em torno da cultura política que ele ajudou a consolidar.
Um dos capítulos mais dolorosos foi a pandemia. O Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes por Covid 19, enquanto o governo federal protagonizava uma condução marcada por conflitos, resistência a recomendações científicas e sucessivas controvérsias. Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde no início da crise, deixou o cargo depois de divergências com Bolsonaro sobre a condução da emergência sanitária. Seu sucessor, o general Eduardo Pazuello, permaneceu à frente da pasta durante uma das fases mais críticas da pandemia. A história política brasileira produziu depois uma cena curiosa: Mandetta disputou uma vaga no Senado por Mato Grosso do Sul em 2022 e não foi eleito, enquanto Pazuello foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. O episódio diz muito sobre aquele ambiente político, embora não permita concluir que o eleitorado tenha simplesmente escolhido entre os dois. Mandetta obteve 206.093 votos; Pazuello, 205.324. Um perdeu, o outro ganhou.
A pandemia também expôs uma diferença de comportamento que permanece no imaginário nacional. Enquanto hospitais lotavam e famílias procuravam oxigênio, Bolsonaro participava de motociatas e eventos políticos. A imagem de um presidente percorrendo ruas em meio à crise sanitária contrastava com a ausência de uma presença presidencial nos hospitais que enfrentavam o colapso. O número de mortos transformou a pandemia em uma das maiores tragédias da história brasileira. É possível discutir responsabilidades individuais, decisões administrativas e circunstâncias internacionais, mas é impossível recontar aquele período sem lembrar o ambiente político em que essas escolhas foram tomadas.
Na área ambiental, outro capítulo ganhou nome próprio. Em uma reunião ministerial realizada em abril de 2020, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar a atenção da sociedade concentrada na pandemia para promover mudanças regulatórias. A expressão usada por ele, “passar a boiada”, tornou-se símbolo das críticas à política ambiental daquele período. O vídeo da reunião veio a público por decisão do Supremo Tribunal Federal e transformou uma fala interna do governo em uma das imagens mais marcantes daquela administração. O contraste eleitoral também chama atenção. Em 2022, Ricardo Salles foi eleito deputado federal por São Paulo com 640.918 votos. Marina Silva, histórica defensora da Amazônia e ex-ministra do Meio Ambiente, também foi eleita, mas recebeu 237.526 votos. Não há nada de ilegítimo no resultado. O eleitor tem liberdade para escolher quem quiser. O dado, porém, é expressivo demais para ser ignorado quando se tenta compreender os valores que encontravam espaço naquela conjuntura.
Houve também episódios relacionados à credibilidade das próprias autoridades. O caso mais conhecido foi o de Carlos Alberto Decotelli, escolhido por Bolsonaro para comandar o Ministério da Educação em 2020. Antes mesmo de assumir, seu currículo começou a ser questionado. A Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, negou que ele tivesse obtido o doutorado que constava de sua trajetória. A Universidade de Wuppertal, na Alemanha, também contestou a informação sobre um pós-doutorado. A Fundação Getulio Vargas informou que Decotelli não havia sido professor titular da instituição, como aparecia em sua apresentação profissional. Também foram apontadas inconsistências e indícios de plágio em seu trabalho acadêmico. Diante da repercussão, ele deixou de assumir o ministério.
Outro episódio envolveu o próprio Ricardo Salles. Antes de chegar ao Ministério do Meio Ambiente, ele apresentava em seu currículo um mestrado em Direito Público pela Universidade Yale, nos Estados Unidos. A informação foi desmentida pela universidade, que afirmou não ter registro de que Salles tivesse estudado na instituição. Posteriormente, ele atribuiu a informação a um erro de sua assessoria. O caso ganhou repercussão justamente porque não se tratava de um currículo apresentado por um candidato desconhecido, mas de alguém que ocupava uma das principais posições da República em uma área especialmente sensível para o Brasil.
Damares Alves, escolhida para comandar o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também teve sua formação acadêmica questionada. Ela havia se apresentado publicamente como mestre em Educação, Direito Constitucional e Direito da Família. Quando as informações foram verificadas, sua própria assessoria esclareceu que ela não possuía mestrado acadêmico nessas áreas. Damares posteriormente explicou que utilizava o termo “mestre” em referência à sua atuação no ensino bíblico. A explicação é parte importante da história, mas não muda o fato de que os títulos acadêmicos, no sentido formal apresentado ao público, não existiam.
Esses episódios de currículo precisam ser tratados com alguma precisão. Não são todos iguais e não devem ser colocados no mesmo saco. No caso de Decotelli, universidades contestaram diretamente títulos e vínculos acadêmicos. No caso de Salles, Yale negou a formação que constava de sua apresentação. No caso de Damares, a própria assessoria esclareceu que os títulos acadêmicos não existiam. O ponto comum não é afirmar que todos praticaram a mesma fraude, mas lembrar que pessoas indicadas para funções de Estado chegaram ao centro do governo acompanhadas de informações curriculares que precisaram ser corrigidas, desmentidas ou explicadas.
Aquele período também foi marcado por outras situações que provocaram indignação. Em 2022, o então ministro da Educação Milton Ribeiro foi envolvido em um episódio de disparo acidental de arma de fogo dentro do aeroporto de Brasília. O caso ganhou repercussão nacional e levantou novamente a discussão sobre armas, responsabilidade e tratamento dispensado a autoridades. Não é preciso transformar o episódio em algo maior do que ele foi para reconhecer que sua ocorrência dentro de um aeroporto, envolvendo um ministro de Estado, era suficientemente grave para merecer atenção pública.
Fora do núcleo estritamente governamental, o ambiente social daquele período também registrou acontecimentos que ajudam a entender o clima de radicalização. Houve casos de violência política e episódios envolvendo símbolos e manifestações nazistas tratados por alguns como simples expressão de opinião. É importante fazer uma distinção: liberdade de expressão é fundamento da democracia, mas não transforma apologia ao nazismo ou manifestações de ódio em direitos absolutos. Uma sociedade democrática precisa ser capaz de estabelecer limites entre opinião, divergência e práticas que atentam contra a própria dignidade humana.
Também é impossível falar daquele ambiente sem mencionar a desigualdade que atravessa o Brasil. Durante o governo Bolsonaro, declarações de autoridades provocaram críticas por exporem uma visão de mundo percebida por muitos como profundamente hierarquizada. O então ministro da Economia, Paulo Guedes, reclamou publicamente que, com o dólar baixo, até empregadas domésticas estavam viajando para a Disney. O comentário causou forte reação justamente porque transformava o acesso de trabalhadores ao consumo e ao turismo em motivo de incômodo. Na Educação, o ministro Abraham Weintraub afirmou que universidades não eram destinadas a todos e defendeu a ampliação da formação técnica. Novamente, a discussão ultrapassava a política partidária: tratava-se de que lugar a universidade, a cultura e as oportunidades deveriam ocupar na vida dos brasileiros.
Na mesma linha, a então ministra Damares Alves ficou conhecida pela declaração de que meninos vestiriam azul e meninas, rosa. A frase ganhou dimensão nacional porque condensava uma visão conservadora sobre gênero que ultrapassava a preferência pessoal e entrava no discurso oficial de governo. Ao mesmo tempo, o Brasil continuava convivendo com desigualdades raciais profundas, enquanto políticas de inclusão e cotas eram frequentemente colocadas em dúvida. Em algumas regiões, comunidades religiosas de matriz africana também enfrentavam ataques e intolerância. Tudo isso fazia parte de uma discussão maior sobre quem é reconhecido, respeitado e protegido em uma sociedade.
E havia ainda o velho problema da relação entre poder público, família e interesses privados. O debate político daquele período foi alimentado por acusações, investigações e controvérsias envolvendo familiares de Bolsonaro, assim como por episódios anteriores relacionados a gabinetes parlamentares, funcionários e relações políticas. Mas é justamente aqui que a memória precisa ser responsável. Não se deve transformar suspeita em condenação nem acusação em fato consumado. A democracia exige investigação, prova e devido processo. O mesmo rigor deve valer para todos, independentemente do sobrenome, do partido ou da ideologia.
Também é preciso lembrar que Bolsonaro não inventou todos os problemas brasileiros. Racismo, desigualdade, violência, intolerância religiosa, corrupção e privilégios atravessam governos e gerações. O chamado “orçamento secreto”, por exemplo, tornou-se um dos maiores símbolos da opacidade na distribuição de recursos públicos durante o período, mas o problema da relação entre Congresso e Executivo não começou nem terminou naquele governo. Da mesma forma, denúncias envolvendo corrupção não podem ser usadas seletivamente conforme a conveniência política de cada lado.
É justamente por isso que a discussão mais importante talvez não seja quem roubou mais, quem gritou mais alto ou qual partido merece mais confiança. É sobre qual país queremos ser. Um país em que homem tenha mais valor que mulher? Em que heterossexual seja tratado como superior a homossexual? Em que branco tenha mais oportunidades que negro? Em que rico tenha direitos mais amplos que pobre? Em que referências europeias e norte-americanas sejam automaticamente consideradas superiores às brasileiras? Ou uma sociedade que reconheça a dignidade de todos, independentemente de origem, cor, gênero, religião ou condição econômica?
O Brasil de 2019 a 2022 foi atravessado por essa disputa de valores. Houve a pandemia, as mortes, as brigas no Ministério da Saúde, a troca de ministros, as controvérsias ambientais, a “boiada”, os currículos desmentidos, o episódio de Milton Ribeiro, declarações de autoridades, conflitos culturais, armas, radicalização política e uma sucessão de acontecimentos que ainda provocam discussões. Nenhum desses fatos precisa ser exagerado para ser lembrado. Eles já têm peso suficiente por aquilo que efetivamente aconteceu.
Talvez a melhor maneira de olhar para aquele período seja sem a paixão que costuma acompanhar as eleições. Bolsonaro teve milhões de votos e continua representando uma parcela significativa da sociedade brasileira. Seus eleitores não podem ser reduzidos aos erros de seu governo. Da mesma forma, os erros de Lula ou de qualquer outro governo não definem automaticamente todos os seus eleitores. Democracia adulta exige essa separação.
Mas memória não é perseguição. Recordar que Mandetta perdeu enquanto Pazuello venceu, que Salles recebeu mais votos que Marina, que currículos oficiais precisaram ser corrigidos e que decisões tomadas durante a pandemia tiveram consequências humanas enormes não significa negar a legitimidade das urnas. Significa apenas não permitir que a passagem do tempo transforme fatos em esquecimento.
Um país que esquece rapidamente corre o risco de repetir seus próprios erros com a tranquilidade de quem acredita estar vivendo uma novidade. O Brasil não precisa escolher entre memória e reconciliação. Pode fazer as duas coisas. Pode seguir adiante sem apagar o que aconteceu. E talvez seja justamente essa a maturidade que mais falta à nossa política: aprender com o passado sem transformar a lembrança em ódio, mas também sem permitir que a nostalgia reescreva a história.
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Imagem: O Globo

