
Na política, há acontecimentos que mudam completamente o rumo de uma eleição. Em 2022, a pandemia de Covid-19 ocupou esse papel. Independentemente da avaliação que cada eleitor faça sobre o governo Jair Bolsonaro, é consenso entre diversos cientistas políticos e analistas eleitorais que a condução da crise sanitária desgastou sua imagem junto a parcelas importantes do eleitorado e influenciou o resultado das urnas. Não foi o único fator da derrota, mas dificilmente pode ser ignorado.
Na opinião da Revista Coité, o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil tem potencial para produzir efeito semelhante sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro. Evidentemente, trata-se de um contexto completamente diferente. Uma pandemia e uma crise comercial não são comparáveis em natureza. O que as aproxima é a percepção pública de responsabilidade política construída durante o debate nacional.
O episódio ganhou dimensão quando integrantes da família Bolsonaro e aliados participaram de encontros e articulações nos Estados Unidos em meio ao agravamento da tensão diplomática entre Washington e Brasília. Posteriormente, diante da repercussão negativa, houve mudanças de discurso e manifestações públicas defendendo a retirada das sanções. Ainda assim, a narrativa de que representantes brasileiros teriam buscado apoio externo em um conflito envolvendo interesses nacionais passou a ser explorada pelos adversários e encontrou espaço no debate público, foi consolidada, virou verdade pétrea. De maior cabo eleitoral, Trump virou amigo da onça!
O governo de Donald Trump justificou a adoção das tarifas com argumentos ligados à investigação comercial conduzida contra o Brasil. Entre os temas levantados estavam o Pix, políticas comerciais, meio ambiente e outras questões regulatórias. O governo brasileiro contestou as justificativas, classificando-as como inconsistentes e reafirmando que o Pix é um sistema soberano, eficiente e um dos maiores casos de sucesso da inovação financeira brasileira. Hoje, o sistema é reconhecido internacionalmente pela rapidez, segurança e baixo custo, servindo de referência para diversos países que estudam modelos semelhantes.
Também chamam atenção alguns dos argumentos utilizados por Washington. A preocupação declarada com questões ambientais contrasta, na visão de muitos analistas, com o histórico da política ambiental americana. Da mesma forma, críticas relacionadas às condições de trabalho despertam debates sobre a própria legislação trabalhista dos Estados Unidos, frequentemente apontada por especialistas como menos protetiva ao trabalhador do que a brasileira em diversos aspectos. Esses contrastes reforçam, para parte da opinião pública, a percepção de que as tarifas possuem forte componente geopolítico e econômico, voltado à defesa dos interesses americanos.
Outro elemento relevante é a reação do mercado financeiro. Setores tradicionalmente identificados com posições liberais passaram a demonstrar preocupação com os impactos econômicos das tarifas e com o aumento da insegurança nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O tema deixou de ser apenas ideológico e passou a afetar exportadores, investidores, empresas e trabalhadores brasileiros.
Pesquisas recentes de opinião também indicam mudanças de percepção entre parcelas do eleitorado, inclusive entre eleitores identificados com a direita, sobre os efeitos políticos do episódio. O fato é que a Faria Lima, onde habita a parcela mais concentrada do PIB brasileiro, há alguns meses bajulava Flavio e os Bolsonaro como pupilos; hoje lhes cerram as portas.
Contudo, não é possível afirmar desde já qual será o impacto eleitoral definitivo das patacoadas diárias patrocinadas pela direita radical. A história demonstra, porém, que crises nacionais costumam alterar campanhas presidenciais quando atingem diretamente o cotidiano da população.
Definitivamente, o tarifaço não é apenas um embate entre governos. Na prática, seus efeitos recaem sobre empresas, empregos, investimentos e sobre a imagem internacional do Brasil, que tem conseguido se mostrar resiliente e firmado novas alianças comerciais que já ensaiam mais que neutralizar o prejuízo econômico pretendido pelo governo americano ao brasileiro. Quando um conflito externo passa a produzir consequências internas, o eleitor tende a procurar responsáveis. Foi assim durante a pandemia. Na avaliação da Revista Coité, poderá ocorrer fenômeno semelhante com o desgaste provocado pela crise comercial. Se essa percepção continuará crescendo até as próximas semanas, não haverá salvação para a candidatura apoiada por Jair Messias Bolsonaro.
#Tarifaço #FlávioBolsonaro #DonaldTrump #PolíticaBrasileira #Eleições2026

