O encontro da Revista Coité com Edgar Morin, que virou saudade

A morte do filósofo, sociólogo, antropólogo e pensador francês Edgar Morin, aos 104 anos, anunciada nesta sexta-feira (29), encerra uma das trajetórias intelectuais mais influentes da contemporaneidade e deixa um legado que atravessa fronteiras, áreas do conhecimento e gerações de pesquisadores. Referência mundial do chamado pensamento complexo, Morin transformou a maneira de compreender as relações entre ciência, sociedade, cultura e condição humana, influenciando campos como comunicação, filosofia, psicologia, ciências sociais, educação e direito. Intelectual humanista, resistente ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, integrou a Resistência Francesa contra a ocupação alemã e adotou o sobrenome Morin durante o período de clandestinidade, substituindo o nome de nascimento, Nahoum. Ao longo de sua trajetória intelectual e política, tornou-se também um crítico firme do stalinismo e de todas as formas autoritárias de poder, dedicando sua vida à defesa de uma visão mais integrada, crítica e profunda do mundo.

Em Natal, cidade pela qual nutria especial apreço e à qual retornou diversas vezes, Morin protagonizou um encontro improvável que permanece vivo na memória da Revista Coité. Era 2012, quando participava de mais uma atividade acadêmica promovida pelo Grupo de Estudos da Complexidade da UFRN. Na mesma noite, na silenciosa Ponta do Morcego, o editor do blog, o repórter Gato Preto, preparava-se para jantar quando percebeu a chegada de um senhor que, antes de entrar no restaurante, decidiu contemplar o busto da poetisa Zila Mamede. Ao se aproximar, veio a surpresa: era o próprio Edgar Morin. Sozinhos na penumbra, diante da homenagem à escritora, permaneceram alguns minutos em um diálogo silencioso, interrompido apenas por um discreto e recíproco “boa noite”. Um encontro breve, sem discursos nem fotografias, mas carregado de significado para quem passou anos ouvindo, estudando e admirando a genialidade daquele que se consolidaria como um dos maiores pensadores do último século.

Hoje, aquela cena ganha contornos de despedida. O homem que parou para ler atentamente uma placa desgastada sobre Zila Mamede e que dedicou a vida a combater a fragmentação do conhecimento transforma-se definitivamente em memória e legado. Autor de mais de 30 livros, entre eles a influente obra Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, escrita em parceria com a Unesco, Morin defendeu que o mundo não pode ser compreendido por partes isoladas, mas pela articulação entre diferentes saberes e experiências humanas. Instituições acadêmicas, pesquisadores e admiradores em todo o mundo lamentam sua partida, enquanto sua obra permanece como referência indispensável para as ciências humanas e para todos os que acreditam na necessidade de reconectar saberes em tempos de crescente complexidade.

Para a Revista Coité, fica a honra daquele encontro improvável em uma noite natalense e a certeza de que Edgar Morin continuará presente onde houver reflexão crítica, sensibilidade humana, compromisso com a democracia e inquietação.

#EdgarMorin #RevistaCoité #GatoPreto #PensamentoComplexo #NatalRN

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima