“No carnaval todo mundo quer ser o que é…”

Senta que lá vem mais uma polêmica de Carnaval…
A edição de 26 de janeiro do jornal O Globo trouxe à tona um novo capítulo da disputa cultural e política em torno da festa mais popular do país. A reportagem Santa Folia, assinada pelo competente jornalista Yago Godoy, mostra como avançam propostas de leis que pretendem coibir o que chamam de cristofobia, com destaque para Salvador, onde um projeto aprovado na Câmara Municipal prevê multas a blocos e foliões que, segundo o texto, hostilizarem símbolos da fé cristã durante a folia.
O debate não surge no vazio. Nos últimos anos, o Carnaval passou a ser constantemente tensionado por críticas a fantasias consideradas ofensivas, como as de indígenas, profissionais da saúde ou personagens associados a estereótipos raciais e culturais. O argumento central desses movimentos é conhecido: determinadas representações transformam identidades, profissões e símbolos sagrados em caricatura, reforçando preconceitos históricos. Se esse entendimento vale para indígenas, negros, enfermeiras ou religiões de matriz africana, há quem defenda que o mesmo critério deveria se aplicar a símbolos cristãos. Para alguns, trata-se apenas de coerência, o famoso pau que dá em Chico também deve dar em Francisco.
É nesse contexto que se insere o Programa de Combate à Cristofobia aprovado em Salvador. A proposta proíbe ofensas a símbolos cristãos e o uso de fantasias de freiras com conotação sexual, estabelecendo multas que podem chegar a R$ 4,5 mil, com agravamento em caso de reincidência. Os autores afirmam que não se trata de censura, mas de garantir respeito e paridade entre crenças. Já especialistas do direito alertam para os riscos da subjetividade da lei, para a insegurança jurídica e para um possível choque com o princípio da laicidade do Estado, além de lembrarem que o Brasil já dispõe de normas gerais contra a intolerância religiosa.
Por trás da discussão jurídica e cultural, há também uma leitura política difícil de ignorar. Analistas e pesquisadores apontam que esse tipo de pauta mobiliza emoções, engaja bases eleitorais e cria pânicos morais que rendem visibilidade e votos. Os dados do próprio IBGE mostram que a maioria da população de Salvador é cristã, o que enfraquece a ideia de perseguição estrutural, enquanto estatísticas indicam que os maiores alvos de intolerância seguem sendo as religiões de matriz africana. No fim das contas, o Carnaval volta a ser palco de um embate maior sobre liberdade, respeito e os limites entre celebração, crítica e instrumentalização política da fé.
O título desta postagem é verso do saudoso e brilhante poeta Moraes Moreira.
Foto: Reprodução O Globo





