
Durante meses, tentaram vender ao Rio Grande do Norte a imagem de um governo derrotado, de uma gestão sem rumo e de uma liderança politicamente esgotada. Pesquisas divulgadas ao longo da campanha apontavam índices catastróficos de reprovação, enquanto adversários trabalhavam para transformar dificuldades administrativas em uma sentença definitiva sobre a capacidade política da governadora. Houve quem apostasse no isolamento de Fátima, quem tentasse desmoralizá-la publicamente e quem enxergasse naquele ambiente uma oportunidade para antecipar o fim de um projeto político.
Erraram na avaliação da dimensão política de Fátima Bezerra.
As urnas apresentaram uma realidade eleitoral que não correspondia à narrativa de isolamento e esgotamento que se tentou construir. A eleição de Samanda Alves para o Senado, a ampliação da presença petista na Assembleia Legislativa e, principalmente, a chegada de Cadu Xavier ao segundo turno demonstraram que o campo político liderado pela governadora continuava mobilizado e competitivo. No segundo turno, Fátima foi para a estrada, defendeu sua gestão, apresentou os resultados de sua administração e pediu ao eleitorado que avaliasse a possibilidade de continuidade daquele projeto.
E o resultado entrou para a história.
Cadu de Lula venceu Allyson Bezerra por 1.073.024 votos, equivalentes a 50,77% dos votos válidos, contra 1.040.399 votos do adversário, que obteve 49,23%. Uma diferença de 32.625 votos em uma disputa acirrada, cujo resultado assegurou ao Partido dos Trabalhadores a permanência no comando do Governo do Rio Grande do Norte a partir de janeiro de 2027.
Mas há algo nesse resultado que ultrapassa a vitória de um candidato ou de um partido. Fátima Bezerra conseguiu aquilo que nenhum governador potiguar eleito e reeleito havia alcançado desde a instituição da possibilidade de reeleição para cargos do Executivo: eleger o próprio sucessor.
É preciso compreender o tamanho desse feito.
A trajetória começou em 2018, quando Fátima chegou ao Governo do Estado derrotando Carlos Eduardo Alves, do PDT, no segundo turno. Em 2022, conquistou a reeleição ainda no primeiro turno, com aproximadamente 58,3% dos votos válidos. Agora, ao concluir seu segundo mandato, consegue transferir o comando do Executivo a um aliado que participou diretamente de sua administração desde o início.
Antes dela, outros governadores tentaram garantir a continuidade de seus grupos políticos, mas não conseguiram. Garibaldi Alves Filho não conseguiu eleger Fernando Freire. Wilma de Faria também não conseguiu assegurar a eleição de Iberê Ferreira de Souza. Rosalba Ciarlini sequer conseguiu viabilizar sua candidatura à reeleição, enquanto Robinson Faria terminou sua tentativa de permanecer no cargo com apenas 11,85% dos votos válidos, em 2018.
Fátima rompeu essa sequência histórica. E fez isso depois de oito anos de governo, enfrentando um cenário eleitoral adverso, uma oposição combativa e uma campanha na qual sua própria trajetória política foi colocada no centro dos ataques.
A conquista também estabelece outra marca: pela primeira vez, o Rio Grande do Norte terá três governos consecutivos do Partido dos Trabalhadores. Não se trata apenas da permanência de uma legenda no poder, mas da continuidade de um projeto político iniciado em 2019, renovado pela reeleição de Fátima em 2022 e agora legitimado novamente pelas urnas.
Fátima deu um olé em quem tentou desmoralizar sua trajetória, em quem apostou no desgaste irreversível de sua imagem e em quem trabalhou para colocar sua administração na vala comum da incompetência. Deu um olé, também, em uma oposição que parecia acreditar que a repetição de discursos sobre o caos seria suficiente para transformar uma narrativa eleitoral em realidade. O resultado mostrou que o eleitorado não se comportou como parte dos adversários esperava.
É evidente que nenhum governo está acima de críticas. A administração estadual enfrentou problemas, desafios e limitações que fazem parte da realidade da gestão pública. Mas uma coisa é cobrar resultados e apontar falhas; outra, completamente diferente, é tentar convencer a sociedade de que nada foi feito e de que não existe qualquer reconhecimento popular de um projeto administrativo. A eleição demonstrou que essa simplificação não dava conta da complexidade política do Rio Grande do Norte.
O mais significativo é que Fátima conseguiu esse resultado sem precisar colocar seu nome na disputa. Em março de 2026, ao anunciar que permaneceria no governo até o fim do mandato e abrir mão de uma candidatura ao Senado, fez uma escolha que, naquele momento, foi interpretada por alguns como recuo. O desfecho eleitoral mostrou que sua prioridade era concluir a gestão e concentrar esforços na construção da continuidade política de seu grupo.
E conseguiu.
A vitória de Cadu também evidencia a importância de uma liderança capaz de construir caminhos para que um projeto sobreviva à própria liderança. Escolhido para representar a continuidade administrativa, Cadu Xavier participou do governo desde 2019, primeiro à frente da Secretaria Estadual da Tributação e, posteriormente, da Secretaria da Fazenda. Mesmo sem experiência anterior em disputas eleitorais, chegou ao segundo turno e reverteu a vantagem obtida pelo adversário na primeira votação.
Fátima não entregou apenas a faixa de governadora ao seu sucessor. Entregou ao PT a possibilidade inédita de governar o Rio Grande do Norte por três mandatos consecutivos. É um resultado que reposiciona sua trajetória na história política potiguar e exige uma reflexão sobre a dimensão de sua capacidade de articulação.
Há uma diferença enorme entre ocupar o poder e exercer liderança política. Fátima demonstrou que sabe fazer as duas coisas. Enfrentou adversários, atravessou momentos de desgaste, sustentou suas escolhas e chegou ao fim de uma das eleições mais disputadas da história recente do Estado com seu grupo político fortalecido.
Talvez a maior lição dessas eleições seja justamente esta: confundiram desgaste de governo com ausência de liderança. Apostaram que as dificuldades administrativas seriam suficientes para apagar sua trajetória, sua capacidade de articulação e sua influência sobre o eleitorado potiguar.
As urnas escreveram outro capítulo.
Fátima Bezerra não precisava ser candidata para protagonizar esta eleição. Seu nome esteve no centro da disputa, sua liderança foi colocada à prova e seu projeto político saiu vitorioso. Cadu venceu, Samanda chegou ao Senado, o PT ampliou sua presença institucional e a história política do Rio Grande do Norte ganhou um acontecimento inédito.
Que ninguém mais duvide da liderança política da Professora Fátima Bezerra. Sua trajetória não precisa ser medida pelas previsões de adversários, pelas manchetes de ocasião ou pelas narrativas construídas nos bastidores. O resultado de 2026 acrescenta um capítulo singular a essa história: pela primeira vez, um governador potiguar reeleito conseguiu eleger seu sucessor.
Em 2026, Fátima Bezerra não disputou uma eleição. Seu projeto político foi colocado à prova, sua liderança foi questionada e seu grupo enfrentou uma disputa duríssima. Ao final, o Rio Grande do Norte assistiu a um resultado histórico: ela encerra oito anos de governo elegendo quem dará continuidade ao seu trabalho. Há vitórias que falam por si. Esta é uma delas.

